sábado, 20 de março de 2010

Inquilinos

"É verdade que, mesmo sob o atual regime impessoal, o mundo apresenta falhas na distribuição dos seus benefícios, favorecendo alguns andares do prédio metafórico e martirizando outros, tudo devido ao que só pode ser chamado de incompetência administrativa. Mas a responsabilidade não é nossa. A infra-estrutura já estava pronta quando chegamos. Apesar de tentativas como a construção de grandes obras que afetam o clima e redistribuem as águas, há pouco que podemos fazer para alterar as regras do seu funcionamento.
Podemos,isto sim, é colaborar na manutenção da Terra. Todos os argumentos conservacionistas e ambientalistas teriam mais força se conseguissem nos convencer de que somos inquilinos no mundo. E que temos as mesmas obrigações de qualquer inquilino, inclusive a de prestar contas por cada arranhão no fim do contrato. A escatologia cristã deveria substituir o Salvador que virá pela segunda vez para nos julgar por um Proprietário que chegará para retomar seu imóvel. E o juízo Final, um cuidadoso inventário em que todos os estragos que fizemos no mundo seriam contabilizados e cobrados.

_ Cadê a floresta que estava aqui?- Perguntaria o Porpietário.
_ Valia uma fortuna


E:

_ Este rio não está como eu deixei...

E, depois de uma contagem minuciosa:

_Estão faltando cento e dezessete espécies.

A humanidade poderia negociar. Apontar as benfeitorias -monumentos,parques, áreas férteis onde outrora existiam desertos- para compensar a devastação. O proprietário não se impressionaria.

_Para que eu quero o Taj Mahal? Sete Quedas era muito mais bonita.
_E a catedral de Chartres? Fomos nós que construímos. Aumento o valor do terreno em...

_Fique com todas as suas catedrais,represas , cidades e shoppings, quero o mundo como eu o entreguei. "



* Não precisamos de uma mentalidade ecológica. Precisamos de uma mentalidade de locatários. E do terror da indenização.

3 comentários:

  1. Caramba! De quem é o texto??

    MUITO BOM!

    beijaooo

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Luís Fernando Veríssimo,trecho de um livro dele.

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